


Foi muito gostoso ver a cara de espanto do Fernando, com a história de encantamento e de ter o Felipe fazendo as vozes dos personagens comigo.
Esse primeiro dia de inverno, trouxe com seu vento pessoas muito bacanas pra praça e levou com ele meus céus de outono...MARAVILHOSOS!!! Logo que saímos da praça desabou a chover e o céu ficou cinza.Depois de um papo com o Alexandre Vilas Boas e o Claudemir Lara, meus amigos-artistas aqui de Guarulhos, resolvi contar procês a experiência de ontem - bem bacana! - com o grupo de jovens do POJ (Programa Oportunidade ao Jovem), do qual sou Arte-educadora:
Foram dois de cada vez, mostrar pra turma da roda com seu corpo, o que era essa tal de sabedoria. Foi lindo de se ver!!! Vale ressaltar que, em geral, os gestos saíam do plexo solar, bem no meio do peito!
Depois cada um falou o que pensava sobre esta palavra:
“_Sabedoria a gente tem com a vida, depois que a gente fica velho”
“_Sabedoria é ser humilde e reconhecer nossos erros"
"_Sabedoria é o conhecimento que a gente tem dentro da gente e a gente passa pras outras pessoas"
"_Sabedoria é ter paciência e querer aprender"
"_Sabedoria é a inteligência que a pessoa tem"
Depois puxaram da memória, outra atividade que tínhamos realizado, na qual todo mundo trouxe o nome de uma pessoa, de sua convivência que, para eles, são pessoas que têm os saberes latentes e constantes em suas vidas.
Voltamos a juntar mão com mão numa roda e cirandamos mais um tanto. Desta vez, eles dançaram ciranda com vontade, brincando e rindo muito. Marcamos com os pés as batidas fortes da canção e, disseram, sentiram-se indígenas.
Minha amiga, Miriam Palma, enviou esta oração do Rubem Alves. Penso que é preciso compartilhar...
A mais bela oração pela natureza
Ó Deus, nós te damos graças por este universo, nosso lar; pela sua vastidão e riqueza,
pela exuberância da vida que o enche e da qual somos parte.
Nós te louvamos pela abóbada celeste e pelos ventos, grávidos de bênçãos,
pelas nuvens que navegam e as constelações, lá no alto.
Nós te louvamos pelos oceanos, pelas correntes frescas,
pelas montanhas que não se acabam, pelas árvores, pelo capim sob os nossos pés.
Nós te louvamos pelos nossos sentidos: poder ver o esplendor da manhã,
ouvir as canções dos namorados, sentir o hálito bom das flores da primavera.
Dá-nos, rogamos-te, um coração aberto a toda esta alegria e a toda esta beleza,
e livra as nossas almas da cegueira que vem da preocupação com as coisas da vida e das sombras das paixões, a ponto de passar sem ver e sem ouvir até mesmo quando a sarça,
ao lado do caminho, se incendeia com a glória de Deus.
Alarga em nós o senso de comunhão com todas as coisas vivas, nossas irmãs,
a quem deste esta terra por lar, juntamente conosco.
Lembramo-nos, com vergonha, de que no passado aproveitamos do nosso maior
domínio e dele fizemos uso com crueldade sem limites, tanto assim que a voz da terra,
que deveria ter subido a ti numa canção, tornou-se um gemido de dor.
Que aprendamos que as coisas vivas não vivem só para nós; que elas vivem para
si mesmas e para ti, que elas amam a doçura da vida tanto quanto nós, e te servem,
no seu lugar, melhor que nós no nosso.
Quando chegar o nosso fim, e não mais pudermos fazer uso deste mundo, e tivermos
de dar nosso lugar a outros, que não deixemos coisa alguma destruída pela
nossa ambição ou deformada pela nossa ignorância.
Mas que passemos adiante nossa herança comum mais bela e mais doce, sem
que lhe tenha sido tirado nada da sua fertilidade e alegria, e assim nossos corpos
possam retornar em paz para o ventre da grande mãe que os nutriu e os nossos
espíritos possam gozar da vida perfeita em ti.
Rubem Alves
(Do livro Orações por um mundo melhor, PAULUS, 1997.)
http://www.rubemalves.com.br/amaisbelaoracaopelanatureza.htm
Hoje choveu e, se minha avó Maria estivesse por aqui, ela faria aniversário.
Resolvi então, eu que ainda aqui estou, escrever algo pra celebrar a memória dessa maravilhosa Contadora de Histórias, que encheu a minha vida de fantasia e encantamento, de medo e de alegria, de flores e de animais; de vida enfim!
Uma porção de coisas
_Vó, lembra de quando o quintal de casa, aquele onde a senhora tinha a horta e o galinheiro, encheu d’água quando deu aquele temporal?
_Eu lembro.
_Lembro da senhora amarrando a saia bem pra cima, e entrando no lago de lama que aquilo virou, pra ver se não tinha entupido o cano por onde a água escoava...
_Eu tinha certeza que a senhora ia dar um jeito, e nem ia ficar machucada. Fiquei com pena das alfaces, da abóbora, da cebolinha...tudo morrendo afogada, coitadas...
_Fiquei com medo dos relâmpagos. Aqueles que, a senhora me ensinou, caem bem no meio do cucurutu e a gente morre...já viu, né? Ia virar um pedacinho de carvão, torradinha. [Coitada da vó].
_Vixe, deixa eu tirar essas coisas de minha cabeça; num presta pensar coisa ruim!
[Êita, lá vai a vó lá no fundão do quintal, pra cutucar o cano com o pedaço de pau que ela pegou pra servir de bengala e que segura a corajosa no chão do lago. Minha vó é bem corajosa, num é mesmo?]
_Já pensou se aparece cobra? Ai meu Deus do céu...e se for aquela que a senhora me contou que mora no rio do interior e veio aqui visitar os parente no lago de lama?
_Já sei vó: bate nela com o pedaço de pau. Ela vai ficar zonza e o aguaceiro leva embora. Viu como eu aprendi, vó?
_É vó, ta na hora de entrar pra casa. Tomar banho quente e café também. Depois preparar a janta. Todo mundo tem que comer.
_Eu já sei uma porção de coisas. Foi a senhora que me ensinou.
_Brigada vó!
Pra minha vó Maria, que foi viajar e ainda conta histórias na eternidade, eu sei.